Domingo - Anotações

Domingo - Anotações

O sol abre-se. A brisa do leste me diz que tenho corpo. A mão quente esbarra no ar úmido. Os olhos dopados piscam em dor. É mais um dia.

Lembrei-me da galinha no quintal da dona Ana me encarando. Tão pequena e já tão cheia de si e de suas penas. Lá, o vento soprava do sudeste. Aquelas penas fresquinhas balançando e aquele olhar reto.

Meu projeto de gato começou a escalar a cama. Meu corpo foi se espreguiçando ao som do estalo de suas garrinhas. Porque você é tão frágil? Pra quê você escala, com tanto labor? Minha cabeça foi ficando leve de sono. De repente, um fucinho e um ronronado aparecem. Cheiro de amido de leite. Tão frágil.

O sol arreganha-se. Desimportantemente, um filhote cheira uma folha tão seca como o tempo. É hora do café. Sorrisos. Um tapinha nas costas e um pequeno sorriso. A dor nos olhos e a pobreza da alma desprezam o afago. Nada pode atravessar a aura de interno. Meu ego internou dentro de mim e meus olhos são o grito do socorro.

Mas o jornal está na TV. O socorro não tem tempo quando o almoço sai às 12h. Nem quando quer se estudar gramática. Nem quando exime-se de culpa.

A família cumpre seu dever de estar ali ou lá. Mas o réu se mune de espadas para o combate. E a sofredora se mune de cansaço de senhora. A ferida aberta derrama o sonho. E então vem o grupo adestrado a comentar. "Coitados". "Culpa dela (e)". "Soube que era doente da cabeça".

Bendita sejam as mães. Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos? A pele, o estômago, os olhos e as costas sabem.

A senhora que penhorou meus bens não sabe e nem entende onde eles estão. Vou saqueá-los com febre. Em nome de todxs. Ou será que isso é uma veste para eu poder fazer jus ao meu socorro?

Cada um vive como aprendeu.

Sônia Marmeládov,

você não está em mim quando caio em tentação.

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