A ditadura militar estava assolando o país. Sempre a serviço dos Estados Unidos, a destruição da nação nas mãos dos milicos deu o cenário dos anos 60 para uma das gerações mais brilhantes de artistas que esse país já produziu em sua variante nacional e resistente: a MPB. Um grito de esperança lutando contra o massacre dos sonhos de liberdade e igualdade.
Não temos mais um equivalente a Chico Buarque hoje. Isso por si só demonstra a grandeza desse compositor, cantor, músico. Autoproclamado "impuro" no meio dos compositores, Chico desentranha a musicalidade que a palavra possui, nos atinge além da esfera orgânica dos sentidos quando tocados por sua poética que não só significa, mas também soa. Desta lista de nomes da música popular que foram influenciados pela literatura, Chico faz um desvio: ele É a literatura em si.
Como explica a professora Adélia Bezerra de Meneses em entrevista à revista Cult:
"Mais do que num poema (sobretudo numa leitura silenciosa, de lábios fechados), na canção a palavra é corpo: modulada pela voz humana, portanto carregada de marcas corporais; a palavra cantada é um sopro que se deixa moldar pelos órgãos da fala, trazendo as marcas cálidas de um corpo humano. (Palavra viva/ palavra com temperatura,/ palavra”, diz Chico em “Uma palavra”). A palavra cantada é isso: ligação de sema e soma, de signo e corpo. E se é verdade que o ritmo é fundamental e necessariamente presente em toda a poesia escrita, é verdade também que ele se alardeia com mais intensidade na música".
Filho de um intelectual sociólogo professor de peso com uma pianista, poucos conseguiriam alcançar a repercussão com a mesma rapidez que ele. Sua educação foi acadêmica (ávido leitor de autores russos e franceses), sempre na presença de intelectuais frequentando sua casa, até moradia na Europa ele teve. Apesar das críticas direcionadas ao berço de ouro, como a letra de A Resposta cantada por Marcos Valle (falar de terra na areia do Arpoador / quem pelo pobre na vida não faz nem favor / falar do morro morando de frente pro mar / não vai fazer ninguém melhorar!) poucos alcançaram a sensibilidade de Chico para com os menos afortunados. Nem mesmo os próprios desafortunados. O resultado poético-musical de Pedro Pedreiro embalou a sina do pobre com a melancolia, monotonia, frustração e falta de esperança da vida da maioria dos brasileiros:
"(...)
Esperando
esperando
esperando
esperando o sol
esperando o trem
esperando o aumento
para o mês que vem
esperando um filho
pra esperar também
esperando a festa
esperando a sorte
esperando o dia
de esperar ninguém
esperando enfim
nada mais além
que a esperança aflita
bendita
infinita
do apito do trem
que já vem
que já vem
que já vem"
"Que já vem" repetido em sequência após uma quebra rítmica invoca o barulho do trem que Pedro irá morrer esperando, marcando o lirismo melancólico e, ao mesmo tempo, belíssimo de Chico Buarque. Aliás, na antiguidade, lírica era a poesia acompanhada por música, assim como Ilíada e Odisseia eram também. Buarque é o nosso aedo, termo grego que não diferencia poeta de cantor. Como diz Augusto de Campos (1974, p. 93):
"Mas, além da poética dê Chico, que a tantos
tanto empolgou em tão pouco tempo, há também a rica
dimensão melódica de suas músicas; seu canto flui
descontraidamente, nas composições mais simples como
nas mais pretensiosas. O intimismo de sua linguagem
sugere igualmente um tratamento musical de câmara,
onde a boa articulação do texto, a clareza melódica e
o despojamento interpretativo são aspectos essenciais".
Despretensiosamente, como ele mesmo frequentemente afirma, suas letras simplesmente "nascem", não sendo produzidas fruto de uma atenção específica a temas. Sua poética surge de um contexto cultural, social e histórico de maneira orgânica em um momento onde a arte se manifestava em contraposição à ideologia dominante, como quebra da infraestrutura e superestrutura do capital. Numa censura militar, a poesia escorrega entre os dentes como em Apesar de Você em sua variante utópica, virando hino contra a ditadura:
"(...)
Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
(...)"
Como afirma, brilhantemente a professora Adélia:
"Num mundo massificado, homogeneizado, de exploração generalizada, com a globalização concentracionária campeando; de consumo e obsolescência programada, sociedade da mídia e da cultura do espetáculo, como poderia a grande poesia ser de adesão?"
Autores separam a obra de Chico em três grandes vertentes: lirismo nostálgico (a volta ao passado em negação ao presente), variante utópica (um olhar esperançoso para o futuro) e vertente crítica (discurso direto sobre sua atualidade). Essa categorização do trabalho dele também se estendeu ao mercado: o box de CD especial de 50 anos o separou em 5 tipos: O Malandro, O Trovador, O Amante, O Cronista e o O Político. Sempre em diálogo com suas referências literárias:
"Este diálogo pode ser notado em “Sabiá”, canção que parodia a “Canção do
Exílio” de Gonçalves Dias – poema parodiado por grandes poetas brasileiros e em
“Rosa dos Ventos”, canção que relaciona-se diretamente à musicalidade de trechos de
O Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Também percebemos a forte
influência da poesia de João Cabral em “Construção” e “Baioque”, canções que utilizam
a sensibilidade arquitetônica do poeta pernambucano. As canções “Até o fim” e “Flor
da Idade”, possuem conexões diretas com os poemas de Drummond; “Poema das Sete
Faces” e “Quadrilha”, respectivamente" (CAVALCANTI, p.23-24, 2008).
Sua poética é capaz de alcançar o lirismo-romântico ao mesmo que tempo que compõe discurso político. Mas suas temáticas também abrangem a boemia, a inocência saudosista, o amor incurável. Isso porque Chico é um artista e a arte, acima de tudo, tem compromisso com nada a não ser consigo mesma.
CAMPOS, Augusto de. Balanço da Bossa. São Paulo, Ed: Perspectiva, 1974.
CAVALCANTI, Luciano Marcos. MÚSICA POPULAR BRASILEIRA, POESIA MENOR?. Travessias, Cascavel, v. 2, n. 2, ago. 2008. ISSN 1982-5935. Disponível em: <http://e-revista.unioeste.br/index.php/travessias/article/view/2993>. Acesso em: 19 de out. de 2020.
NAVES, Santuza Cambraia et. al. Levantamento e comentário crítico de estudos acadêmicos
sobre música popular no Brasil. ANPOCS bib – Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, São Paulo, n. 51, 2001. Disponível em: <https://www.anpocs.com/index.php/bib-pt/bib-51/9387-levantamento-e-comentario-critico-de-estudos-academicos-sobre-musica-popular-no-brasil-1/file>. Acesso em: 12 de out. de 2020.
PINTO, Manuel da Costa. Lirismo e resistência de Chico Buarque; Revista Cult. Disponível em: <https://revistacult.uol.com.br/home/lirismo-e-resistencia-de-chico-buarque/>. Acesso em: 12 de out. de 2020.
TANCREDI, Silvia. "Chico Buarque"; Brasil Escola. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/biografia/chico-buarque.htm>. Acesso em: 12 de out. de 2020.
Texto maravilhoso e muito bem contextualizado sobre a obra desse poeta e compositor brasileiro.
ResponderExcluirExcelente análise. A obra de Chico Buarque segue sendo atemporal e suas músicas, que retratavam a sociedade da época em que elas foram compostas, soa como um grito ao que vivemos hoje, depois de mais de quatro décadas, em meio a um governo que faz de tudo para o ser o menos democrático possível. A música, a literatura, e as artes em geral, continuam com seu papel de nos fazer refletir sobre o que estamos vivemos.
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