Eu Quero Ser Medíocre
Eu Quero Ser Medíocre
Não me senti bem ao sentar
debaixo do ar condicionado do Pátio Central com um frappè de Nutella nas mãos. Isso
não me pertence. Minha pele agradecia aos 15° graus artificiais. Pessoas
andando devagar com saltos que desafiam a gravidade. Porcelanato e plantas mal
cuidadas. Uma bolsa de 586 reais sendo comprada por uma moça que mal consegue
pegar sua carteira por causa do tamanho de suas unhas bem pintadas. Isso não me
pertence. Me deu sede.
Não há mais como beber uma
água. Você bebe a fragrância cara jogada no balcão de mogno onde a moça magra
bem vestida lhe passa uma água. E você não somente bebe a água. Você engole
enquanto luzes e cores brilham nos seus olhos com preços e sorrisos perfeitos.
Pessoas com corpos e objetos perfeitos que vivem em um não lugar, com um não
calor, com um não você real. Essa é a água que você bebe. Essa água é acima da
média. Esse lugar é acima da média.
Põe os óculos e vai pra
casa. O vento anuncia o lado de fora. Mormaço. Uma pedinte. Cheiro de urina.
Caminhar é duro, já que você não se exercita. Suor na testa caindo nos olhos. Pessoas
caminhando rápido para não perder o ônibus. Calçada quebrada e suja. Árvores
frondosas com sombras frescas. Uma pochete de 15 reais sendo pechinchada por
um homem comum. Respirei fundo. Ufa! Estava tendo um pesadelo. Agora sim, isso
me pertence.
Eu sou o passe do busão. Sou
o suor da sandália molhada de chuva. A boca de lobo entupida.
É preciso obter muito e
saber engenharia mecânica para poder entrar no ambiente de porcelanato sem ter
que ser olhado dos pés à cabeça. É preciso ser branco. Do branco não se espera
menos. O cabelo liso pode entrar no banco sem fazer a porta automática
apitar.
Jovens (cada vez mais jovens) se espelhando em jovens (cada vez mais jovens). Você quer saber seu segredo? Você tem que sair da média, como a jovem Júlia Galvão.
Júlia é uma menina meiga que faz tudo o que deve ser feito da maneira como deve ser feito. Ela é a cara de sua geração. Ela representa os futuros engenheiros que irão levar a economia pra frente. Ela é a selfie na praia. Ela é o coelhinho fofo do shopping. O retrato dos Beatles na parede branca. A ordem.
E eu... Eu sou a nota 7. Suada. Sou o livro rasgado na estante. O poema mal feito. O olhar silencioso. A pessoa que se entope de drogas remédio. O gatinho magrinho abandonado. A natureza selvagem.
Vejo muita gente reclamando por não estar fazendo sucesso. Muita gente. Muita frustração por não ter seu nome na Broadway. Ou na boca do Jô.
Rapaz.... Mas que textinho medíocre.
Mediocridade dentro de um mundo medíocre a image e semelhança de um Deus medíocre, que traz guerra e, por fim, gera ainda mais mediocridade. Mediocridade fruto de seres medíocres que pertencem ao um falso mundo que nunca existiu, mas que sempre esteve presente nos homens que se dizem homens. Este texto não faz parte deste mundo. Faz parte de um não mundo que não existe, mas que vira e mexe mete-se com o mundo que é mundo e que faz-nos pensar sobre o que seria o mundo sem sua mediocridade.
ResponderExcluirMuito obrigada pelo seu não cometário. <3
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